Brasil, assim deixo-o

Um dos motes da ditadura era Brasil, ame-o ou deixe-o. Na época do milagre econômico vivido por nosso país principalmente no começo da década de setenta, o povo brasileiro foi levado a acreditar que nos tornaríamos em pouco tempo uma potência capaz de brigar palmo a palmo com as grandes economias mundiais. Este pensamento era mantido principalmente com os vultosos investimentos nas companhias estatais da época, com a liberação de verbas públicas para empresas privadas, com a realização de obras dignas de faraós egípcios e com um marketing agressivo que, todos em conjunto, criavam um bolo gigantesco de dinheiro e claro, de dívidas.

Mas a história apresenta hoje a verdade deste período e dos subseqüentes: somos um país as margens do desenvolvimento que continua a perder o bonde da história quando nos comparamos com países muito mais novos que nós mas que estão anos-luz à frente tanto economicamente quanto socialmente. Mas onde erramos (nós não, eles)? Uma das respostas pode estar na educação.

Desde sempre o investimento em educação em nosso país é pautado pelas migalhas financeiras fornecidas pelos governos municipais, estaduais e federal. Só a título de exemplo, enquanto o carnaval do Rio de Janeiro deste ano recebeu doze milhões de reais do governo federal distribuídos entre as doze escolas de samba do grupo de elite, o PMQESUPrograma de Modernização e Qualificação do Ensino Superior distribui US$ 200 milhões entre as 52 universidades federais do país. Fazendo as contas, cada universidade recebe US$ 3,84 milhões (R$ 6,7 milhões) para sua modernização.

Não pense que sou contra a verba destinada ao carnaval, pelo contrário. O retorno financeiro gerado pelo evento, sejam em postos de trabalho temporários ou fixos ou por meio de impostos retornados pela circulação de mercadorias dentro da indústria e serviços, vale a pena. Mas de outro lado é cômico observar que ainda continuamos com a mesma mentalidade dos anos 70 em pleno Século XXI, onde é mais fácil manter o povo entretido que estudando, além de ser mais vantajoso pois desta forma não reclama e não discute as mazelas do planalto central e de outras paisagens nacionais.

Mas nem só de ações governamentais equivocadas vive a educação em nosso país. Semana passada a Folha On-line trouxe aos leitores uma notícia no mínimo estranha e que depois foi requentada em outros sites e revistas nacionais. O governo federal cancelou o pregão para a aquisição de 150 mil laptops que seriam distribuídos em escolas públicas do país. Este cancelamento aconteceu devido ao custo dos aparelhos que não chegam nem perto dos US$ 100,00 da idéia inicial do projeto OLPC. Tudo bem, 100 doletas é um número que até mesmo o criador da idéia, Nicholas Negroponte já admitiu que não é possível mesmo em larga escala, mas daí o preço chegar a US$ 360,00 como foi oferecido, algo está errado.

A Positivo Informática, empresa que apresentou o menor preço (estes US$ 360,00) no pregão diz que este valor é devido ao custo de instalação, configuração e entrega dos laptops nas escolas que fazem parte do projeto e por causa disso ele fica alto. Dentro de minha ignorância fico com a seguinte pergunta na cabeça: quais são as instalações e configurações necessárias para estas máquinas? Não viriam elas todas configuradas? Ou será que é necessário instalar o sistema operacional on-site?

Mais intrigante ainda são os seguintes pontos: a mesma empresa participou de pregão semelhante no Uruguai e lá ofereceu US$ 245,00 por máquina. Como justificativa, o governo do país vizinho iria adiantar o pagamento dos laptops e que estes seriam entregues em um único local. Lendo as declarações da empresa fica a dúvida se ela não tem como bancar a conta, legando ao consumidor final (o governo e por tabela, nós) esta ineficiência, se não deseja correr atrás de um financiamento bancário como todos aqueles que precisam na hora do aperto ou se o lucro líquido da operação (em torno de 5%) é insuficiente para os proprietários da mesma.

Fez bem o governo federal em cancelar o pregão. E melhor irá fazer se este colocar no mar contêiners vindos do sudeste asiático. Lá um laptop com processador de 1.8Ghz, 512Mb de memória e 80GB de disco custa para o usuário final, na loja, US$ 500,00 (incluindo neste preço o valor da licença do sistema operacional e impostos). Se forem comprados em grandes lotes, com impostos de importação zero e sem o sistema operacional, facilmente o preço será inferior ao ofertado no pregão por uma máquina de melhor capacidade, mesmo incluindo o custo de instalação de um novo sistema operacional livre e a logística para entrega (mais uma pergunta: por quê os Correios não entram na roda?).

Que são estes laptops e porque tanto furor sobre eles?

Antes de se tornar uma mina de dinheiro para poucos, a idéia um laptop por criança é uma proposta educacional para a inclusão digital de povos que não possuem perspectiva nenhuma em suas vidas. Baseado em um grande consórcio de empresas, pessoas, organizações e governos de todo o mundo, cada integrante ficaria com uma pequena parcela de responsabilidade no projeto com o intuito de reduzir a vala digital existente entre povos ricos e pobres.

Entretanto a realidade não é bem esta. A ganância nata do ser humano fala mais alto e o projeto deixou seu principal objetivo de lado tornando-se moeda de barganha em operações políticas e comerciais em todo o planeta. Empresas querem vender milhões de equipamentos objetivando o lucro fácil inerente a operações deste tamanho, governos e governantes aproveitam para fazer demagogia junto aos seus povos e organizações participam na beira do processo para justificar o que pouco fazem ou não fazem. No frigir dos ovos, os integrantes acreditam que estão fazendo algo e quem precisa reza para que aconteça algo numa encenação digna dos grandes teatros romanos da antigüidade.

Efetivamente este tipo de projeto não seria necessário se governos e empresas possuíssem responsabilidade social e deixassem de lado a politicagem e os desejo irresponsável de lucro fácil. Educação não é politicagem e não deve ser vista exclusivamente como business. Ela deve ser vista como ferramenta para a criação de uma verdadeira política social e também de negócios que efetivamente são bons para todos. Enquanto isso não chega, vivemos no picadeiro como espectadores de um show de interesses pessoais.

E 150 mil máquinas resolvem?

Nem de longe. Hoje, de cada 4,5 brasileiros, somente um possui acesso à Internet. Este número é muito próximo dos apresentados por países economicamente piores que nós, tais como o Vietnã (4.7) e o Uruguai (4,57) mas ainda está muito longe de outros no mesmo paralelo como o Chile (3.9) e a Malásia (2.2). O número de máquinas em questão é somente um paliativo e um beta test da adoção da tecnologia pelas escolas pois de nada adiantaria também o governo comprar quatro milhões de máquinas e estas ficarem encostadas por falta de conhecimento dos próprios professores de como usá-las. Fatalmente virariam mercadoria de escambo para traficantes de droga.

O resumo da ópera é o seguinte: tanto o governo quando os governados precisam conjuntamente pensar que educação não é gasto, é investimento para criar riquezas para nosso país. Esta equação é facilmente comprovada, dentre outras, na obra From Third World to First: The Singapore Story: 1965-2000 de Lee Kuan Yew, ex-primeiro ministro de Cingapura. Ela explica como o país em 40 anos saiu do terceiro mundo e de uma vergonhosa posição de ex-colônia para se tornar um dos afamados tigres asiáticos com uma renda per capita estimada em S$ 48.900 (cerca de 35 mil dólares). Não posso me furtar de dizer que algumas de suas atitudes beiram a insanidade mas outras, principalmente no que é relacionado a educação, servem de exemplo para muitos outros países, inclusive para nós. A título de exemplo, em números, a Universidade Nacional de Cingapura (National University of Singapore) encontra-se entre as 150 melhores do mundo, batendo todas as brasileiras (exceto a USP) e também várias mundialmente tradicionais, dentre elas Barcelona, Birmingham, Chicago, Kyoto e Miami. Simples de entender o que auxilia uma nação a se efetivamente grande.

Isso não quer dizer muito quando vemos a produção científica da USP Universidade de São Paulo e da Unicamp Universidade Estadual de Campinas. Mesmo com os recorrentes apertos de cinto e malabarismos que precisam fazer em seus orçamentos, só a produção conjunta destas duas universidades é responsável por mais de 35% de todo o conhecimento nacional, levando o país para a 15ª posição mundial a frente da França, Finlândia e Nova Zelândia (mas atrás da Suíça e Dinamarca). Ainda é pouco se compararmos o número de universidades que possuímos com outros países e principalmente diante da esmola que recebem dos governos para manterem seus campi.

E o que isso tem a ver com o pregão cancelado pelo governo federal? Acredite, muita coisa. O Japão saiu de uma guerra arrasado, humilhado, com milhares de cidadãos mortos e duas vergonhosas bombas atômicas na cabeça, para se tornar a segunda maior potência mundial graças aos tradicionais costumes de elevar a educação à necessidade obrigatória. Contam relatos que o imperador Hirohito não se curvava diante de ninguém, exceto de seus professores, indicando o respeito que o dignitário máximo da nação tinha pela educação. Estes relatos podem ser rapidamente comprovados pelo historiador brasileiro Euclides Paes de Almeida em artigo que explica um pouco da imigração nipônica em nosso país na região de Araçatuba, interior de São Paulo.

Uma das ferramentas (senão a mais importante) que elevam o Japão à esta segunda posição mundial é justamente o computador. Com a tecnologia pulsando a cada nanosegundo por meio de cabos e redes sem fio, os japoneses podem criar uma sociedade realmente geradora de riquezas para seus cidadãos sem esquecer o princípio básico da educação. Em escolas nipônicas a tecnologia é usada corriqueiramente para ensinar desde as tradições milenares até as últimas fórmulas matemáticas propiciando assim condições de competição em qualquer área do conhecimento humano.

Desta forma o projeto OLPC ou outro qualquer que leve a informática para a escola, participa da questão educacional como ferramenta de apoio à aprendizagem. Negar que computadores podem fornecer à estudantes uma forma rápida e inovadora de tomar contato com o mundo em que vivemos é o mesmo que negar a Lei da Gravidade. Sem ele o montante necessário para instruir a numerosa população de nosso país chega a beira do impraticável. Ao mesmo tempo, usá-lo simplesmente como vitrine é o desrespeito ao dinheiro público e ao bom senso da sociedade. Assim, não somente é necessário tem equipamento. Também é necessário saber usá-los em todos os sentidos para tirar proveito daquilo que ele pode oferecer. Neste momento entra em cena um outro figurante: o software livre.

Como parte do projeto, o software live é usado em duas grandes vertentes: a redução de custos e a promoção de conhecimento compartilhado. O primeiro ponto é indiscutivelmente claro pois mesmo com um custo de aquisição zero, a obsolescência dos equipamentos fará com que o projeto como um todo aderne em pouco tempo. Já o segundo ponto depende de investimento em outra área que é a capacitação. O software livre possui uma característica fundamental que é a liberdade de uso do código-fonte como bem quiser. Mas de nada adianta esta característica se o professor não possui tempo para estudá-lo, pois além de ministrar uma carga horária absurda, ainda precisa fazer bicos para completar o mirrado salário. Se não existirem mecanismos para que professores possam efetivamente usar o computador e aproveitar de tudo aquilo que lá está, o projeto perde uma de suas colunas e mais, perdemos a oportunidade de criar estudantes engenhosos, curiosos e capazes de fazer.

Não comento aqui a necessidade de escolas reais (com carteira, água potável, luz, quadro-negro, etc) pois estamos mais que carecas de saber que isso é obrigatório. Sim, precisamos desta infra-estrutura mínima para o trabalho mas ao mesmo tempo precisamos estar atentos as mudanças que ocorrem globalmente criando propostas efetivas de mudança de nosso sistema de ensino que atenda as necessidades básicas (como escolas realmente) mas que também atendam outras necessidades e realidades existentes. Se de um lado precisamos de mais escolas na região norte, precisamos de mais conectividade na região sul e ambas devem caminhar juntas sem criarmos um nivelamento, seja por baixo ou por cima.

Finalizando

Quiçá o governo consiga efetivamente um preço menor pelos laptops. Quiçá as empresas participantes consigam rever suas planilhas e participem do aperto de cinto e quiçá consigamos com tudo isso dar melhores condições para professores deixarem de ser escritores de lousa e efetivamente fazerem aquilo que amam e se dedicam: ensinar nossos filhos estudantes como podemos mudar o mundo, juntos. Caso contrário, continuar amando a terra fica difícil.

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