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Destruindo a blogosfera

Internet, Pessoalem 02/01/2007Sem Comentários

Em nome da liberdade de expressão e da democracia vale tudo, inclusive destruir o próprio habitat com conteúdo duvidoso e de baixa qualidade a fim de arrebanhar algumas migalhas de anunciantes.

Não sou “blogueiro”, sou desenvolvedor de software e gosto de escrever. Fazendo isso comprovadamente há pelo menos seis anos, vi e participei de dezenas de mudanças na Internet mundial e principalmente na brasileira: novos serviços, novas tecnologias, novas pessoas e novas oportunidades nasceram e pereceram neste meio tempo. Claro que paralelamente seres dotados de pouca capacidade organizacional surgiram para viver às custas de seus hospedeiros.

No início da era “blogger”a função principal do movimento era a libertação, a apresentação de idéias, conceitos e opiniões de todos os tipos. Nesta biosfera conviveram lado a lado desde os mais ortodoxos até os mais liberais oferecendo conteúdo pessoal que inevitavelmente não chegaria a grande imprensa. Com a democracia da Internet e a facilidade das ferramentas existentes, cada vez mais pessoas com algo a dizer eram arrebanhadas para o novo modelo de divulgação do conhecimento humano.

Mas como na biosfera, o novo ambiente denominado de “blogosfera” também começou apresentar suas parasitas digitais que aproveitando-se dos seres organizados, criam estruturas de vida voltadas à vivência alheia onde o conteúdo não é importante, mas sim os cliques em pequenas caixas de anúncios os quais retornam migalhas para seus ditos “usuários”. Com isso, a peste se espalha por todo o espaço tornado muitas vezes impossível a tarefa de encontrar conteúdo de qualidade.

Alguns vão bradar: “estamos exercendo nossa liberdade de expressão, exercendo a democracia”. Ora meus amigos, existem limites para este exercício como para qualquer atividade democrática na vida. “Mas qual é o limite em um espaço aberto como a Internet?” Bom senso, simplesmente bom senso.

A maioria dos leitores não divulgam pornografia em seus sites. Se for qualquer conteúdo relacionado a pedofilia, o número se torna mais reduzido. E por quê não colocar? Simplesmente por questão de bom senso (mesmo sendo proibido em nosso país). Aqueles que o fazem normalmente munem-se de pseudônimos e outras artimanhas para não serem denunciados e também para que suas imagens não se tornem enlameadas. Se isso acontece com pornografia e pedofilia, porque não manter o bom senso com o conteúdo “menos desprezível”?

Um exemplo da falta de bom senso foi a quantidade de “notícias” relacionadas com a parada de manutenção no site de relacionamentos Orkut na semana passada. Como um verdadeiro ciclone, a “grande notícia” tornou-se motivo para que espertalhões de plantão e parasitas digitais conseguissem alguns tostões a mais de usuários ávidos por um conteúdo efetivamente explicativo para o ocorrido.

Claro que não pode ser esquecida aquela parasita que “copia e cola” notícias de real conteúdo, muitas vezes sem uma mudança de vírgula e até mesmo sem a citação da fonte somente para acrescentar alguns cliques em seus relatórios. Nada mais repugnante que uma atitude destas a qual mostra a real cultura da Lei de Gérson predominante.

Temos saída para este assassinato digital e destruição da biosfera digital? Claro que sim. Devemos exercer a democracia e a liberdade de expressão justamente. Na pior das hipóteses, deixar que a teoria da evolução das espécies pensada por Darwin faça efeito em nosso habitat para que os seres de menos capacidade de adaptação pereceram com o tempo.

Finalmente, antes de ser estabelecida a Inquisição internérica, que fique clara minha posição: não sou contra os anúncios e tampouco contra os blogs. Sou contra os hereges que acreditam exercer o direito da democracia e impregnam a Internet com algo que chamam de conteúdo. Se algum tribunal inquisidor for criado, este deve julgar os crimes contra a “fé blogueira” para purificar em suas fogueiras as almas aliciadas pelo lado escuro da força.

Os benefícios da educação na inclusão digital

Internet, Pessoal, Software Livreem 26/12/20062 Comentários

Meu capítulo na íntegra do livro Software Livre e Inclusão Digital editado pela Conrad Editora de São Paulo/SP

Está mais que provada a relação entre educação de uma nação e sua independência, seja esta política, tecnológica ou social. O bem-estar da população está intimamente ligado ao seu nível cultural, não dependendo da geografia do país, de sua cultura, religião, parque industrial ou forma de governo. Exemplos não faltam no mundo mas pouco cabe aqui desfilá-los. Isso não quer dizer que devemos esquecê-los. Devemos sim, usar este pensamento como forma de questionar o nosso sistema atual e o que podemos fazer por ele e com ele, tendo como finalidade a preparação de nosso povo para os grande desafios que estão sendo apresentados diariamente.

É sabido que as distâncias entre os rendimentos de profissionais com e sem educação são enormes. Para piorar este quadro, as profissões de base, aquelas fundadas em sua maioria no trabalho braçal, estão desaparecendo num ritmo frenético devido a automação de tarefas ou ainda pela busca de mão-de-obra mais barata em países como Tailândia, Índia, Sri-Lanka, etc. De forma contrária, profissões nascem a cada dia e centenas de milhares de vagas ficam sem ser preenchidas devido a falta de profissionais com aptidões para desempenhar estas novas funções, em sua maioria, relacionadas a tecnologia. Então o desemprego não é uma questão de oportunidade laboral, mas sim de capacitação profissional do indivíduo.

Assim, existem duas opções para nosso quadro político-educacional-econômico atual: ou tornamo-nos um país “educado”, que propicia a população o conhecimento tecnológico necessário a inclusão do cidadão na sociedade atual, ou iremos servir novamente, como já ocorrido, de proletários para outras nações.

Mesmo estando na constituição brasileira como um direito social, a educação em nosso país mantém a décadas a cultura de que é algo caro e pouco rentável. Este pensamento coligado a interesses externos que desejam manter a população sobre um cabresto de ignorância e alienação, faz com que tenhamos uma massa de analfabetos sociais. Indivíduos que desconhecem seus direitos, seus deveres, seus valores, que não se empregam e que não geram riquezas para a coletividade, para o país. Complementando, aqueles que possuem o privilégio de freqüentar a escola, são preparados com currículos arcaicos e deficientes, os quais pouco contribuem para que deixe de ser um analfabeto social e que possa enfrentar os novos desafios a serem apresentados nos anos vindouros.

A inclusão digital
Nunca se falou tanto sobre inclusão digital quanto agora. Também há muito não se fala da educação como fator determinante de mudanças como nos últimos anos. O tema começa a interessar todos e não exclusivamente educadores e profissionais ligados, de uma forma ou de outra, a educação. Acredita-se que este despertar acontece principalmente pela disponibilidade da informação, advinda da tecnologia e da facilidade de obtenção desta.

Quando se fala em inclusão digital imagina-se logo aqueles “sem teto” tecnológicos; pessoas que não dispõem de computadores em suas residências ou locais de trabalho. O correto a pensar sobre o tema são os cidadãos que estão às margens da revolução hoje apresentada, moldada em bits e informação. Pessoas que não possuem acesso seletivo ao conhecimento fartamente existente e disponível gratuitamente (ou quase) dentro da Internet e de outras mídias. Certo seria dizer que estas pessoas são “excluídos de seleção”.

Hoje existe uma quantidade imensurável de informação, seja esta útil ou não. Somos bombardeados todos os dias em todas as mídias possíveis com informações de todas as áreas do conhecimento. A cada dia, um novo planeta é descoberto, uma nova técnica agrícola, uma nova vacina, um novo ancestral. Guerras iniciam-se e terminam, rebeliões e revoluções acontecem, enfim, estamos ligados vinte e quatro horas por dia no que acontece a nossa volta.

Mas somente “estar ligado” é discutível. Precisamos criar uma seletividade tão grande quanto a massa de informação recebida senão nosso papel continuará ser de coadjuvante nos acontecimentos do planeta.

Este é um dos desafios da inclusão digital. Somente inserir o indivíduo no mar de informação é pouco diante dos desafios apresentados. É necessário, principalmente, prepará-lo para ser seletivo e ter possibilidade de tirar o melhor proveito possível daquilo que recebe. Isto demanda muito mais que um computador ou uma conexão com qualquer provedor de informações, seja este a Internet ou até mesmo a televisão. Demanda a mudança de paradigmas na educação hoje existente e oferecida a todos nós brasileiros.

Voltando ao tema trabalho, em um estudo apresentado pelo Ph.d David D. Thornburg intitulado “2020 visões para o futuro da educação”, comenta-se que na virada do século (já passado), 60% dos empregos existentes vão requerer habilidades dominadas por somente 20% da mão-de-obra existente. Este fenômeno existe devido as necessidades específicas de proficiência em tecnologia e principalmente porque a educação não está preparada para abraçar as novas cadeiras de conhecimento que nasceram nas últimas décadas, tão velozmente quanto a lei de Moore.

Um quadro por demais estarrecedor. De um lado o grande número de vagas a serem preenchidas sem sucesso e, de outro, uma grande massa de pessoas necessitadas que não podem se candidatar a estas vagas devido a falta de instrução para conduzir determinadas tarefas, em sua maioria, relacionadas aos bits.

Então a inclusão digital como apresentada é errônea? utópica? De forma nenhuma. É preciso pensar nas várias opções existentes, nos vários caminhos, com a finalidade de fornecer aos cidadãos aptidões que atendam novas necessidades, não somente de educação mas principalmente de trabalho.

O software livre como ferramenta de inclusão
Paralelamente ao nascimento da Internet, ocorreu o verdadeiro debute do software livre. Puristas podem questionar esta informação afirmando que as idéias iniciais nasceram em meados da década de 80 com a criação da FSF – Free Software Foundation, dirigida por Richard Stallman, um ativista da idéia do software livre em todo o mundo. Mas sem a existência da Internet imagina-se que este não seria tão conhecido com é hoje e não teria 1% da sua força atual, gerada principalmente pela criação do sistema operacional Linux.

Além de politicamente correto, pois permite seu uso e distribuição sem a necessidade de licença ou autorização, o software livre traz no bojo três interessantes características; a condição de instigar o conhecimento do indivíduo baseado na necessidade daquele que o usa de “pensar” e não somente “apertar”, a redução de custos em níveis baixíssimos, facilitando assim a adoção do mesmo em comunidades que nunca poderiam pensar em ter uma ferramenta de qualidade e finalmente, a mais interessante das características, o senso de comunidade propiciado. Aquilo que é desenvolvido isoladamente ou em grupo, deve ser distribuído à toda a comunidade para que esta possa aproveitar o conhecimento adquirido. Isto faz com que o cidadão sinta-se parte de um conjunto e não somente coadjuvante de uma grande peça regida por duas ou três empresas.

Todas estas características vem de encontro com as necessidades de nações como a nossa que conhecem a urgência da inclusão do cidadão na revolução digital, que possuem um senso forte de coletividade mas não dispõem de recursos abundantes.

A educação e o software livre
Sabendo-se que uma das poucas formas (ou a única) de crescimento real do cidadão é a educação, pode-se usar o software livre com um papel fundamental neste processo, propiciando vários facilitadores para que todos sejam incluídos no cenário educacional e profissional atual e futuro.

O grande desafio é saber usá-lo. Iniciativas devem existir por parte de todos com a finalidade principal de modificar as atuais grades curriculares, dando-as mecanismos flexíveis para a adoção de novas tecnologias como o software livre e suas disciplinas correlatas. Sem esta premissa, pouco se pode fazer para aproveitar todo o potencial dele e cairemos no status-quo da educação de uma geração de “apertadores de teclas”.

O software livre, por suas características, é muito mais que isso. Ele deve ser explorado a fim de apresentar como as coisas ocorrem e não somente como programar para que ocorram. Isto não é referido somente a questão técnica, mas também a questão social, onde cada um aprende a contribuir para o coletivo, mediante suas descobertas, seu aprendizado, seus erros, seus acertos. Forma-se profissionais com aptidões e também caráter.

Muitos queixam-se ou usam como argumento as dificuldades de aprendizado para a não-adoção do software livre. É o mesmo que usar como argumento uma pessoa não guiar no Reino Unido, pois a localização dos pedais e das mãos de direção são diferentes da nossa. Resumindo, um argumento casto e pouco válido para algo tão grandioso. Dificuldades existem para todos e em tudo. A real diferença é enfrentá-las e passar adiante. Até mesmo neste ponto o software livre leva vantagem: ensina que desafios existem para que possam ser superados.

O que pode ser feito
Existem várias ações que podem ser adotadas para a união coesa da educação com o software livre que proporcionem a todos o avanço esperado. Dentre elas, principalmente a mudança imediata nas formas de avaliar e aplicar conhecimentos de estudantes em todos os níveis e a colaboração de vários segmentos da sociedade, norteados a criar pensadores e não braçais.

O primeiro ponto é de suma importância para dar aos educadores condições de incluir novas disciplinas e conhecimentos nos atuais currículos. Precisa-se mudar o que existe internamente numa velocidade maior do apresentado externamente. Preparar o estudante de hoje para trabalhar com tecnologias ultrapassadas é jogar pela janela não somente recursos, mas um tempo precioso que poderia ser usado com outra finalidade. Como disse Jack Welch “se a taxa de mudanças dentro de uma instituição for menor do que a taxa das ocorridas fora da mesma, o fim está a vista”.

O segundo ponto contempla todos os níveis e áreas da sociedade. É preciso que prefeituras absorvam e reconheçam a necessidade de proporcionar o conhecimento à todos, que companhias telefônicas disponibilizem acesso à Internet e outros provedores de informação, que produtores de hardware forneçam equipamentos subsidiados e que a comunidade de software livre participe ativamente de todo o processo, auxiliando na implementação e disponibilização de conteúdo e conhecimento a todos que necessitarem.

Exemplo dessas ações são os denominados Telecentros de São Paulo/SP. Locais espalhados pela cidade, muitas vezes em regiões pobres, onde o cidadão comum tem contato com computadores conectados à Internet e baseados em software livre, que podem ser usados para a obtenção de informação e conhecimento, sendo ciceroneado por pessoas ou monitores que explicam e auxiliam em todos os passos. De longe é um projeto faraônico ou engessado. Conta com a dinâmica do software livre, com o apoio irrestrito da prefeitura e com o interesse despertado nos usuários para ir adiante em suas descobertas.

Também deve-se destacar outra iniciativa. A Rede Escolar Livre, do governo do Rio Grande do Sul. Baseada totalmente em software livre, ela permite que estudantes, educadores, professores, funcionários e todos aqueles ligados a educação tenham acesso ao mundo da tecnologia e da informação digital, em qualquer parte, a qualquer tempo. Como exemplo de integração de vários segmentos, esta iniciativa conta com o apoio da companhia telefônica estadual que fornece canais de conexão para as escolas e várias empresas do segmento de hardware que doaram equipamentos para que o projeto fosse levado adiante.

Além destas, espalham-se por todo o país, iniciativas educacionais de utilização do software livre como ferramenta principal para oferecer conhecimento a centenas de pessoas. Faculdades, colégios de ensino médio e básico, prefeituras, ONG’s e outras empresas e instituições aprovam e utilizam-o nas mais diversas aplicações, oferecendo assim o conhecimento necessário hoje para a inclusão digital do indivíduo amanhã.

Conclusões
Lembrando-me de um adesivo no carro de minha mãe (professora) que dizia: “sem professor o país pára”, vou mais além. Sem educação atualizada e voltada a revolução da informação e do conhecimento, a sociedade e todo nosso país para. Não somente de professores e alunos se faz a educação, mas também de métodos e aproveitamento de oportunidades. Nunca em toda nossa existência foi tão fácil obter informação. Em contrapartida, nunca foi tão difícil fazer com que milhares de pessoas compartilhem a informação e os dividendos dela. É preciso rapidamente aproveitar o desejo de mudanças de nosso povo para educarmos a todos em tecnologia. Desta forma poderemos dar as gerações futuras condições de reconhecerem aquilo que é bom e aquilo que não é para si mesmos e formas de participar na sociedade, não somente como um gerador de impostos, mas principalmente como um crítico construtivo de nosso país. Para isso, o software livre é, sem sombra de dúvidas, a pavimentação da estrada que nos levará a atingir este objetivo muito em breve.

Praia, sol e inclusão digital

Pessoal, Software Livreem 25/12/2006Sem Comentários

Queria ter escrito um artigo sobre a visita que fiz em Pipa mas, devido as coisas que vi e ouvi, creio que um relato sobre tudo é muito mais interessante e explicativo. Assim, aqui estão as minhas impressões sobre mais um projeto de inclusão digital que tive a oportunidade de conhecer e ajudar.

Pipa é um vilarejo escondido no litoral sul do Rio Grande do Norte, entre João Pessoa e Natal. Um pequeno distrito da cidade de Tibau do Sul rodeado de falésias e praias, muito sol e as mais deslumbrantes praias que já conheci no Brasil. E neste cenário paradisíaco, a população local começa tomar contato com computadores e com o software livre pelas mãos de um arquiteto paulista lá radicado que faz, de seu dia-a-dia, o trabalho de ensinar e aprender com todos aqueles que conhecem tudo do mar, mas estão isolados, social e digitalmente.

Para este paraíso, atendendo um convite do colega Maurício (o arquiteto), fui no mês passado junto com o amigo Anahuac de Paula Gil conhecer e ajudar o projeto “Pipa Sabe”. Um trabalho de inclusão digital voltado à população local que, por meio de computadores doados por uma instituição federal e com parceria com a Cidade do Conhecimento da USP, disponibilizam cursos básicos de informática e acesso à Internet para os cidadãos locais, mediante uma unidade de “telecentro”.

Como funciona a inclusão digital em Pipa
À primeira vista você pode estar pensando que inclusão digital é tudo a mesma coisa. Computadores de primeira linha, prédio bonitinhos, conexão para a Internet de alta velocidade, funcionários bem pagos e assim por diante. Isso é o que vemos e ouvimos sobre inclusão na Europa, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Em Pipa as coisas são diferentes. Eles possuem uma antena do Gesac disponibilizada pelo Ministério das Comunicações, alguns computadores doados (7 máquinas, das quais 3 estão em funcionamento), um espaço público dentro da escola municipal de Pipa e muito improviso (como poderá ler adiante). O que é similar em outros projetos que pude conhecer é a garra e vontade das pessoas que lá trabalham e também o software livre que roda em todas as máquinas. No restante…

…A realidade é bem diferente
Antes de lá chegar, imaginava vários cenários possíveis mas não estava preparado para o que vi. Simplesmente era diferente de tudo aquilo que conhecia sobre projetos de inclusão digital e telecentros, podendo inclusive ser chamado de “dantesco”. Os computadores são antiquíssimos (para não chamá-los de máquinas de escrever), as instalações extremamente precárias (com fio de telefone trazendo energia), uma sala com goteiras, móveis improvisados, cadeiras mancas e, como não poderia ser diferente, as eternas brigas do coronelismo nordestino que teima em se manter vivo, atrasando qualquer tentativa de mudar a vida e a situação de nosso povo. Discussões por causa da localização da antena, por causa do ponto de energia, por causa da sala que vai abrigar as máquinas e etc. Tudo é motivo para que dois ou mais estúpidos possam, com suas mãos de ferro, mandem e desmandem na inclusão digital deste pequeno povoado. Mas no meio de todos estes poréns, eu podia ver o brilho nos olhos da garotada que ficava fascinada com a máquina ligada e o Gnome rodando. Uma cena de encher o coração de qualquer um com a esperança que as coisas podem mudar (espero).

No meio disso tudo existem algumas máquinas desligadas. Perguntei ao Maurício o que acontecia e ele simplesmente disse que estavam assim por “motivos de força maior”. Este motivo é o seguinte: energia elétrica. O eletricista da prefeitura “proíbe” que sejam ligados mais de 3 computadores na mesma tomada, alegando os absurdos mais interessantes possíveis (principalmente para mim que cursei dois anos de eletrotécnica). Desta forma, ficam as máquinas lá paradas e sem uso, esperando a boa vontade de alguém ou ainda a “exoneração” do tal eletricista para que tudo funcione.

Claro que a “coisa toda” não funciona por sí só. É preciso muito mais que máquinas ou espaço. É preciso gente com vontade de fazer alguma coisa. E Maurício é uma destas pessoas que valem quatro, cinco, dez vezes mais seu peso em ouro puro. Formado em arquitetura pela USP de São Paulo, teve a oportunidade de se mudar para Pipa e fazer o projeto deslanchar. De fala mansa e andar tranquilo, ele é incansável e dedicado, inventando as mais mirabolantes formas e jeitos para que todos possam aprender e utilizar os computadores e o espaço existente. Junto com ele, vários voluntários trabalham árduamente para manter tudo 100%. Uma destas pessoas, a qual não poderia deixar de citar, é Norma Fagundes. Moradora efetiva de Pipa há alguns anos, é proprietária de uma pequena e aconchegante pousada (Norma, me aguarde ai!) e também mais ou menos a “prefeita” do local. Conhece todos, briga por todos e, com seu sotaque rasgado, faz com que o projeto que possui pouca verba, mantenha-se funcionando. Tal qual Maurício, é uma pessoa das mais valiosas e maravilhosas que conheci e que poderia certamente se candidatar a qualquer cargo, sendo eleita sem sombra de dúvida (mas a ela não interessa).

Nossa ajuda para Pipa
Não pudemos ficar de mãos atadas vendo tudo aquilo. Anahuac com seus fartos conhecimentos técnicos, simplesmente pôs-se a colocar as máquinas funcionando com a solução LTSP, de Jim McQuillan pois, até então, elas funcionavam de uma forma interessante: tunelamento da interface gráfica em SSH. Algo inimaginável para nós técnicos mas a única solução que o arquiteto conhecia para colocar as máquinas em rede (lembre-se, eram máquinas de escrever e não computadores). Depois de 6 horas sob o servidor e algumas liigações para nossos “how-to’s” ambulantes (Cristhiano Anderson e Daniel), Anahuac arredonda a coisa toda com uma pequena interface X (XFCE) e coloca todos na rede com o melhor existente para este tipo de caso.

De minha parte, auxiliei como podia com as máquinas, mas já confirmando minha presença para ministrar aulas de programação web e bancos de dados naquela comunidade. Além disso, a informática básica e os conceitos sobre software livre serão assunto para os participantes em várias palestras e mini-cursos que estão sendo programados.

Finamente, minha impressão
Sinto-me realizado e frustrado ao mesmo tempo. Realizado por poder ajudar aqueles que precisam realmente de ajuda mas frustrado por não poder fazer mais. O pior de tudo é que isso ocorre em todo o país. Projetos e pessoas de primeira linha são esquecidos ou andam em passos de tartaruga por vários motivos, seja por causa de um eletricista, seja por causa de um software mal feito e mal configurado, seja por causa dos coronéis e “dotôres”. Inclusão digital e inclusão social devem e tem que ser política pública, tal qual saúde e educação. Não é possível nos furtarmos deste modelo. Mesmo com a precariedade que presenciei, pude observar que as coisas mudam, que as pessoas mudam. Alguns dos frequentadores já procuram algum curso ou informação adicional sobre áreas correlatas e as máquinas estão mudando a forma de pesquisa e absorção do conhecimento de vários estudantes. Então, temos que fazer centenas de telecentros como estes em todo o país. Temos que aproveitar o momento hoje existente de um governo do povo para fazer aquilo que não foi feito pelo sociólogo, pelo aventureiro camaleão, pelo “escritor” e pelos milicos.

Mas temos que fazer certo. Não são Anahuac’s, Paulino’s, Maurício’s e outros que podem fazer sozinhos. Podemos ajudar quando nos é pedida ajuda. Mas não podemos perder tempo para ficar corrigindo erros de técnicos incapazes que vão instalar uma antena e/ou sistema e não sabem o que estão fazendo. Temos que fazer certo para fazer uma vez somente. Não podemos esperar mais.

Enfim, somente tenho a agradecer pela oportunidade àqueles que nos receberam de braços abertos e dezenas de pendências. Voltaremos mesmo quando não solicitado.

Mudando de casa

Pessoalem 20/12/2006Sem Comentários

Algumas pessoas estavam reclamando que não mais escrevia. Desculpem mas era por uma boa causa.

Estou de mudança. Sim, não somente mudança de site mas também de casa, de endereço, de tudo. A partir de 15 de janeiro estarei morando no Timor Leste por dois anos. Claro que isso vai impactar em algumas mudanças das notícias e informações aqui postadas mas nada será perdido e tampouco será encerrado. Somente estou dando uma pausa para acertar os detalhes da mudança que irá ocorrer em breve.

Uma delas já aconteceu. A partir de hoje meu blog pessoal tem uma nova roupagem e um novo endereço. Ele substitui o antigo endereço e também o conteúdo que passa a ser mais focado no meu trabalho, minhas viagens e minhas coisas do outro lado do mundo. Mas atenção: é somente o blog PESSOAL que muda. Este site irá continuar funcionando 100% a partir do dia 15/01 quando terei tempo para colocar as novidades profissionais nele.

Meus contatos também mudaram. Agora, somente via e-mail ou mensagens instantâneas. Infelizmente (ou felizmente) telefone será algo esporádico em minha vida nos próximos tempos.

Enfim, acesse o novo blog pelo endereço http://www.michelazzo.blog.br e compreenda um pouco mais desta mudança. Qualquer comentário, envie uma mensagem.

Abraços!

Saiu no SBNotícias

Pessoal, Software Livreem 07/12/2006Sem Comentários

No apagar das luzes do mês de novembro estive na cidade de Santa Bárbara D’Oeste para ministrar uma palestra sobre Software Livre na FAC – Faculdade Comunitária de Santa Bárbara, onde fui muito bem recebido pelo professor Adriano Pila e toda a sua equipe.

A palestra rendeu dezenas de mensagens de participantes que desejam começar a usar software livre e Linux, além de uma notícia no portal da cidade que pode ser lida aqui. Nesta matéria, somente um equívoco; estou indo para o Timor Leste não para implementar o E-Gov, mas sim ajudar no desenvolvimento de aplicações dentro do Ministério da Justiça timorense que, claro, poderia também ser chamado de uma parte do E-gov do país.

Para aqueles que não participaram da palestra, a apresentação da mesma está disponível para download clicando-se aqui.

A seguir, meus comentários sobre outro evento que estive participando no começo de dezembro em São Paulo; a PHP Conference Brasil.

Sabe o que tem de novo?

Como afundar sua empresa na Internet

Cuidados para não acabar com a empresa na web.

Internet não elege, mas ajuda

Meus comentários sobre as campanhas digitais (publicado na revista IT Digital).


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