Lobos em peles de cordeiros

A notícia na mídia tecnológica da última semana em que a Microsoft e o BNDES estudam crédito de R$ 50 milhões para software pode ser uma verdadeira fábula grega.

Esta notícia, por sí só, soa para os desavisados como uma ótima alternativa ao nosso país que, certamente precisa de investimentos em sua área de software, principalmente, as micro e pequenas empresas, que são a maioria da força laboral nesta área. Mas, se afinarmos a leitura da matéria e fizermos uma reflexão desta, podemos ver que as intenções da gigante de software vão além da benevolência ou comprometimento com o progresso de nosso país. Mas, e como isso acontece?

Para as empresas se candidatarem à bolada de R$ 50 milhões de financiamento, precisam, dentre outras coisas, que uma de suas soluções de software rode em plataforma Microsoft. Claro que teria que ser assim, pois ela não entraria na jogada se não fosse beneficiada de alguma forma. Neste ponto podemos reconhecer uma das espertezas do lobo: as empresas que recebem os investimentos estarão, necessariamente, desenvolvendo softwares baseados na plataforma Microsoft e assim fomentando o mercado desta por meio de incentivos de compra de licenças de softwares, serviços, suporte e outros.

Para facilitar a equação: uma empresa recebe dinheiro do bolão para desenvolver software baseado na plataforma Microsoft e vende este software no mercado (com o auxílio do marketing da companhia e “cases de sucesso” ensinados pela cartilha da mesma). Uma outra empresa, a que adquire o software, tem obrigatoriamente que arcar com a compra de licenças de sistemas operacionais e outros produtos da Microsoft, além da aquisição de serviços e suporte adicionais para que a coisa toda funcione.

O que mais espanta nesta equação não é ela em si, mas o que está nas suas entrelinhas. Esta conversa toda leva nosso governo, por meio do seu banco de desenvolvimento, a financiar a maior companhia de software do mundo. Explico: a partir do momento que o BNDES entra com sua parte no montante de financiamento, ele auxilia a disseminação da tecnologia da Microsoft em nosso país e esta, por sua vez, recebe seus R$ 25 milhões de volta, seja por meio da aquisição de licenças de software por terceiros, seja pela venda de serviços ou de suporte, além de se aproveitar dos outros R$ 25 milhões do banco que ajudam a financiar o esquema todo.

Ora, então seria melhor para o governo e para o país pegar os R$ 25 milhões do BNDES e criar programas de investimento para empresas deste segmento, sem a necessidade de dizer a elas o que devem criar de software ou não e sobre qual plataforma? Sim, este seria o correto. A demanda do que se cria e como se cria deve partir do mercado e não ser ditada por uma companhia estrangeira que está interessada em financiar seu modelo de desenvolvimento proprietário, bem como suas ações monopolistas.

Dando continuidade ao estudo da matéria, podemos encontrar mais algumas espertezas dos lobos. Uma delas é o destino dado ao dinheiro pela empresa que o recebe. De acordo com o gerente de desenvolvimento da Microsoft, Frank Luzes Jr., este seria utilizado para a aquisição de equipamentos, contratações, ações de marketing e outras finalidades. Com esta afirmação podemos corroborar a equação apresentada: com o financiamento, contrata-se profissionais e estes precisam dominar a plataforma da companhia. Para esse domínio, ele precisa freqüentar cursos oficiais, obter as certificações nos produtos, comprar livros, assinar o MSDN e assim por diante. Então o “investimento” feito é retornado para a Microsoft de outras formas, ou seja, o negócio vira negócio que vira negócio e assim por diante.

O mais interessante em toda a matéria é ver que esta idéia mirabolante faz parte de um programa denominado pela Microsoft de Next Generation (próxima geração de quê?), lançado em maio deste ano com o intuito de “oferecer software subsidiado e apoio em gestão corporativa e marketing para empresas de software no Brasil”. Se formos conhecer de perto este programa ,podemos ver mais uma esperteza do lobo na história: “Para ser elegível, o parceiro deverá assumir o compromisso de desenvolver ao menos um produto na plataforma Microsoft no prazo de um ano”. Assim vemos que a idéia principal não é o fomento do segmento nacional da indústria de software ou de nosso mercado, mas sim o de usar os cordeirinhos brasileiros para ampliar seu market-share dentro e fora de nosso país, fazendo com que cada vez mais se mantenha o modelo capengante de software proprietário balizado pela companhia.

E o que fazer?
Existem várias formas de fomentar a indústria de software brasileira, considerada por Nicholas Negroponte, fundador do MIT, como mais criativa que a indiana, por exemplo. Uma delas é o governo apostar nesta criatividade inerente ao brasileiro. Aproveitar o ambiente heterogêneo aqui existente para criar, cada vez mais, softwares que atendam demandas específicas e que necessitem de criatividade.

Também se faz necessário criar centros de pesquisa em software por todo o país. Estes sim são a base técnica e que alicerça a criatividade, fazendo com que nossos produtos sejam melhores que os outros.

Um outro caminho, paralelo aos comentados, é o fomento do software livre como plataforma que permita nossa indústria exercer sua criatividade. A criatividade não é objeto de patente ou de cerceamento. É objeto de evolução de todos e por isso deve ser incentivado fortemente, mas não da forma que se pensa fazer como desfilado na matéria citada.

Finalmente, não podemos nos deixar enganar por investimentos falaciosos que trazem por trás interesses obscuros e mercantilistas. Devemos tomar cuidado com os lobos em peles de cordeiros e, como na fábula de Esopo, rezar para que o próximo cordeiro a ser abatido, seja o lobo.